25 de ago de 2014

Escolas, alunos e professores 'não falam mesma língua'


Escolas, alunos e professores 'não falam mesma língua'


Ricardo Senra
Da BBC Brasil em São Paulo
Atualizado em 25 de agosto, 2014 

Quando o assunto é a violência dentro das salas de aula, não parece haver consenso sobre suas principais causas.




Quando o assunto é a violência dentro das salas de aula, não parece haver consenso sobre suas principais causas.

Professores, diretores de escolas, alunos e especialistas em educação ouvidos pela reportagem da BBC Brasil apontam para direções diversas, sugerindo que agressões contra educadores seriam fruto do histórico familiar dos alunos, da falta de políticas públicas e policiamento e também de professores mal preparados - e até mesmo agressivos.

A violência em sala de aula contra professores foi um dos temas destacados por internautas em posts de Clique Facebook e no Clique Twitter como um dos que deveria receber mais atenção por parte dos candidatos presidenciais, em uma consulta promovida pelo #salasocial, o projeto da BBC Brasil que usa as redes sociais como fonte de histórias originais.

A pedido da BBC Brasil, internautas, entre eles professores, compartilharam, via Clique Facebook, Clique diferentes relatos sobre violência cometida contra profissionais de ensino. Houve também depoimentos feitos via Clique Google+ e Clique Twitter.

Enquanto ninguém fala a mesma língua, o Ministério da Educação (MEC) diz não ter dados unificados sobre a violência escolar.

Confrontado pela reportagem, porém, o INEP, órgão ligado ao ministério, reconheceu que o tema faz parte da Prova Brasil - avaliação nacional com respostas voluntárias de professores, alunos e diretores. Os últimos dados, de 2011, foram tabulados a pedido da BBC Brasil.

Os resultados apontam que um terço dos professores que responderam ao teste disse ter sido agredido verbalmente por alunos. Um em cada dez afirmou ter sofrido ameaças. Aproximadamente um a cada 50 apanhou de estudantes.


"É simplista culpar crianças e adolescentes por tudo o que acontece", alerta a socióloga Miriam Abramovay, pesquisadora do tema com passagens pela Unesco, Banco Mundial e Unicef.

"A escola tem culpa, porque se isola das comunidades e não se atualiza. E os professores têm péssima formação, simplesmente não conseguem, e muitas vezes nem tentam, conquistar os alunos", diz. "No fim, todos são vítimas."
Descompasso

Para pesquisadora, a desvalorização do ensino resumiria este descompasso. "A estrutura das escolas parou no século 19, os professores dão aulas como no século 20 e os alunos, sempre conectados, vivem no século 21", diz.

Ela diz que as escolas vivem um "processo de abertura" há 50 anos.

"Se antes havia pouco espaço para as classes populares, hoje a e
escola se massificou. Todos entram - nem sempre continuam, mas entram. Mas a relação professor–aluno não mudou nada nesse meio tempo e os educadores não sabem lidar com esse novo interlocutor, que antes estava na rua, do lado de fora", diz.

Abramovay diz que a violência não é consequência direta do entorno. "Há escolas em bairros tremendamente violentos que têm resultados satisfatórios. E colégios particulares, ricos, com problemas enormes", observa.